Muchanga reage a suspensão: "A RENAMO vai acabar na morgue"
10 de fevereiro de 2026
António Muchanga, ex-deputado da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO),considera que o processo para a sua suspensão ou possível expulsão é "inexistente", classificando-o como um "desmando" promovido pela atual liderança do partido após ter participado, no último fim de semana, numa reunião em que defendeu a renúncia de Ossufo Momade.
Em entrevista exclusiva à DW África, Muchanga acusa a direção de Ossufo Momade de manipulação e intimidação. Garante ainda que nunca houve uma reunião formal do Conselho Jurisdicional, responsável pelos processos disciplinares, e afirma que os estatutos da RENAMO nem sequer preveem a expulsão de membros.
Muchanga assegura que continuará membro do partido e acusa Momade de tentar afastar os críticos internos para se perpetuar no poder ou colocar "um fantoche" na liderança.
DW África: O que acha que está por trás da sua suspensão da RENAMO?
António Muchanga (AM): Sentaram com a secretária-geral ontem e tentaram ensaiar uma providência cautelar para nos proibir de falar dos desmandos de Ossufo Momade e do grupo deles. Mas chegaram à conclusão de que a providência cautelar tem de ter causa. Não tendo conseguido [arranjar uma justificação], inventaram essa história de expulsão, embora os estatutos da RENAMO nem prevejam a expulsão de membros.
DW África: Quem inventou esta história, na sua opinião?
AM: Foi a secretária-geral e um jovem chamado Edmundo Panguene, vogal do Conselho Jurisdicional. Mas ele não se pode pronunciar em nome do Conselho Jurisdicional, porque ele é constituído por cinco pessoas. Ele, sozinho, é que está em Maputo. Os outros estão fora da cidade e nunca houve reunião para o efeito. Acresce que nenhuma medida pode ser tomada sobre um membro do partido, sem esse membro ter sido ouvido.
DW África: É esse o seu caso? Nunca foi ouvido?
AM: Nunca fui ouvido. Portanto, é um desmando. Visa ameaçar os membros que participaram na reunião [de sábado] e acredito que, depois deste anúncio, os nossos membros que saíram de todas as províncias serão sujeitos a esta medida.
É uma forma de ameaçar, porque Ossufo Momade inventou uma reunião de generais e ele sabe que, mesmo nessa reunião de generais, não vai ter sucesso. Por isso, está a começar a intimidar as pessoas para permitir que ele se possa perpetuar no poder ou indicar um "fantoche" que vai [perpetuar] os desmandos dele.
DW África: Ou seja, isto seriam manobras do próprio Ossufo Momade para afastar os adversários?
AM: São manobras para afastar os críticos, porque ele quer transformar a RENAMO num regulado. Nem o rei Mswati, o monarca executivo de África, faz o que Ossufo Momade está a fazer.
DW África: O que está ele a fazer? Acha que ele não tem condições de continuar à frente do partido?
AM: Há muito tempo que não. Ele pode continuar como membro, mas não como dirigente do partido. Há muita coisa suja que eu não queria revelar em público, mas se Ossufo Momade continuar com estes desmandos, eu vou dizer. Eu tenho testemunhas - até das últimas pessoas que ele tentou mandar, em dezembro, para a província de Nampula - para fazer macumbice contra membros do partido. E tenho a lista de algumas pessoas que acham que são simpatizantes de Ossufo quando estão na lista de serem abatidos por macumbice.
DW África: Então, não vão acatar esta suspensão?
AM: Essa suspensão não existe. Não há nada disso.
DW África: Como é que vão recorrer disso?
AM: Não se recorre porque é uma medida inexistente. Eu continuarei membro da RENAMO. Eu sou um membro do partido. Quem me trouxe à RENAMO não foi a pessoa que [leu essa decisão].
DW África: Em que estado se encontra neste momento o partido, na sua opinião?
AM: O partido está mal. Esteve quase na sala de "cuidados intensivos", mas por causa do movimento a que eu aderi, no último fim de semana, que está a dar vida à RENAMO, o partido estava a sair dos "cuidados intensivos" para a "enfermaria". Agora, com esta ameaça, acho que eles querem [voltar a colocar] o partido na sala de reanimação, onde vai terminar. Daí vai para a casa mortuária.
DW África: Não há democracia interna no partido, é isso?
AM: A questão não é a democracia interna. Não há regra.