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DesportoÁfrica

O futebol pode acabar com a xenofobia na África do Sul?

Amós Fernando com Sitoi Lutxeque
18 de junho de 2026

África do Sul está no Mundial 2026. Ao contrário de outras seleções africanas, a África do Sul não tem apoio dos amantes do futebol em África – como retaliação aos atos xenófobos. "Boicote" vai acabar com a xenofobia?

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A África do Sul está no Mundial 2026. Mas fora do relvado, a batalha pela confiança e pela solidariedade africana está longe de estar ganha.Foto: Yuri Cortez/AFP

 Quando aÁfrica do Sul entrou em campo esta tarde frente à Chéquia, pela segunda jornada do Grupo A do Mundial, a questão não é apenas desportiva. Para muitos africanos, sobretudo moçambicanos, torcer pela seleção sul-africana tornou-se um dilema moral difícil de ignorar. A xenofobia que continua a vitimizar cidadãos africanos nas ruas da África do Sul está a dividir o continente, e a colocar a solidariedade africana à prova mesmo dentro de um Mundial de futebol.

A maioria dos moçambicanos ouvidos pela nossa equipa admite não apoiar a África do Sul no jogo desta tarde frente à Chéquia, a contar para a segunda jornada do Grupo A do Mundial. A xenofobia que assola o país pesa mais do que a identidade africana partilhada.

"Estão a matar os nossos irmãos"

A ferida é recente e ainda sangra. As imagens de cidadãos moçambicanos e outros africanos a serem perseguidos, agredidos e expulsos da África do Sul continuam vivas na memória de muitos. Para estes, torcer pela seleção sul-africana seria uma traição aos seus próprios.

"Gostaria de apoiar a África do Sul, mas pelo que está a acontecer de facto de lá, é muito doloroso. Estão a matar os moçambicanos. Por isso eu não vou com a África do Sul", afirmou um dos cidadãos ouvidos pela nossa equipa.

O sentimento é partilhado. "Eles chutaram-nos como se fossem frangos. Eles são pessoas como eles,  tinham que sentir", acrescentou outro interlocutor, visivelmente indignado.

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O futebol como instrumento contra a xenofobia

Para o jornalista desportivo moçambicano Raimundo Zandamela, o futebol e as emoções que desperta não podem ser separados deste debate, e podem até ser parte da solução.

"Se nós olharmos para o futebol em particular, o futebol envolve emoção. E emoção é algo que está intrinsecamente ligado ao ser humano. E sendo o futebol algo que mexe com as emoções, é compreensível de forma natural este sentimento de repulsa. É respeitável. É claro que isto é um assunto de índole política, mas não há nada que se sobreponha ou que esteja acima à vida humana", afirmou Zandamela.

Questionado sobre se a força do futebol deveria ser usada como instrumento para pôr fim aos atos xenófobos na África do Sul, o jornalista foi direto:

"Porque não? Se a FIFA tem levado a cabo várias campanhas contra o racismo, a igualdade e tantas outras causas, porque é que então o futebol não poderia também fazer isto?", respondeu.

Futebol e política: separar ou não separar?

Há, no entanto, quem defenda uma visão diferente. Para o jornalista desportivo da Rádio Nacional de São Tomé e Príncipe, Edmilson Numbe, misturar futebol com as tensões políticas e sociais é um erro que pode custar caro à unidade continental.

"De facto, é uma situação que não se pode misturar com o futebol. O futebol une nações e nós, deste continente, berço da humanidade, continuamos a ver representações do continente a brilharem nesta grande competição mundial. E, na minha óptica, não seria de bom grado partir por este caminho que poderia aqui guardar dores, rancores", começou por explicar Numbe.

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O jornalista reconhece que a situação é dolorosa, mas insiste que os resultados desportivos das seleções africanas devem ser celebrados, independentemente do contexto político.

"Claro que a situação é triste. Ninguém pode ficar indiferente daquilo que se assiste na África do Sul. Mas misturar isso com o futebol, na minha óptica, não justifica. Até porque o futebol, se diz na gíria desportiva, que é o ópio do povo. De facto, nós olhamos para as adversidades que as equipas africanas sofreram, sobretudo a chegar ao continente, poderia ser um motivo para estarem cabisbaixos, estarem decepcionados com a recepção que aconteceu no continente, sobretudo num dos países anfitriões, nos Estados Unidos. Mas nós estamos a ter resultados que entram para a história do futebol mundial, para a história do continente africano", acrescentou.

Para Numbe, a chave está em saber separar o que acontece dentro e fora do relvado, sem abdicar da crítica ao que está errado.

"Eu acho que é esse o caminho. Nós temos que separar as coisas. Uma coisa é esse aspeto particular que acontece, que é mau, e que nós não podemos defender aquilo que está errado. Mas só pelo facto disto acontecer, não podemos dizer que a África do Sul não é da família do continente africano, não merece o apoio do continente nesse aspeto ligado ao futebol", concluiu.

Uma xenofobia sem fronteiras

Mas há quem vá mais longe na análise. Para alguns, o problema não se limita aos moçambicanos, e isso torna a situação ainda mais grave e difícil de ignorar, mesmo num dia de jogo.

"Apoiaria a África do Sul sendo africano, mas com essa xenofobia? Não apoiaria. Eles quando expulsam, falam de estrangeiros. Não indica que só estão a expulsar moçambicanos, estão a expulsar mesmo que sejam de outros países, mesmo que sejam países vizinhos, mesmo que sejam de outros continentes", afirmou um terceiro cidadão ouvido pela nossa equipa.

Esta tarde, a África do Sul entrou em campo à procura de pontos que a mantenham viva no Mundial. Mas fora do relvado, a batalha pela confiança e pela solidariedade africana está longe de estar ganha.

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